
Em Dez Anos (1991)
FICHA TÉCNICA
GRAVAÇÃO E MIXAGEM: Mário "Leco" Possolo, Carlos de Andrade (Carlão), Denilson, Toninho Barbosa, Harley Barros e Sérgio Limaneto.
PRODUÇÃO MUSICAL:Nilson Chaves, Fernando Carvalho e Carlos Andrade (Carlão).
PRODUÇÃO EXECUTIVA: Nilson Chaves, Roseli Naves e Marcos Quinan.
CAPA:Roseli Naves (Tela do Artista Plástico Fernando Costa Filho)
ARTE FINAL: José Antonio.
FOTOGRAFIAS: Edinaldo Silva e Marcos Quinan (contra capa)
ARRANJOS: Nilson Chaves, Vital Lima, Marcelo Lima, Fernando Carvalho, Antonio Adolfo, Armênio Graça, Flávio Venturini e Fernando Merlino.
ASSISTENTES DE ESTÚDIO: JP, Rica, Adilson, Cristo e Tião.
PRODUÇÃO GERAL: Roseli Naves
Gravado no Sonoviso (RJ) em Setembro e Outubro de 1981, Master Estúdios (RJ) em Abril de 1986, Fevereiro e Março de 1989 e Agosto de 1990, em 16 canais. Mixado em digital DAT e Masterizado com Dolby.
FAIXAS
Amorcariu
Tecai tutera
Amocariu
Itororó, pirajá
Perebebuí,
Cajurú,
Cametá,
E Marajó
Foi o curumim
Para adormecê
Na samaúma
Mãe da floresta
Plumas ao vento
Itaguari
Tecai tutera
Amocariu
Tum Tá Tá
(Walter Freitas)
Ei, nené,
São rãs e sapos
No quintal vazio
Ei, nené,
São chuvas finas
Na beira do rio
Um bicho brabo nas brenha
Prás bandas lá da mucajá
Neném, a ginga das "égua"
Na noite preta, tum-tá-tá
E é tanto terço
No roxo frio
Tum-tá-tá
São sete embalos na rede navio
Um tiro longe,
Quem fere prás bandas lá da mucajá?
Neném, teus "filho" no mundo
Na noite preta, tum-tá-tá
Mata de mata que na terra de tua saia,
Menina, mãe d´água aguou
Terra de terra que na mata de teu cabelo
Rescende cheiro-cheiroso, chuva, funga que fungou
Rio de rio que na maresia dos olhos,
Menina, desembocou
Noite de noite que na cabeçeira da ponte se afoga
Peixe bubuia, moça, caboco emprenhou
Toca Tocantins
(Nilson Chaves e Jamil Damous)
Toca Tocantins
tuas águas para o mar
os meios não são os fins
por que vão te matar?
por que te transformar
em águas assassinas
e nelas afogar a vida?
toca Tocantins
tuas águas para o mar
é lá o teu destino
aqui não é teu lugar
que viva o açaízeiro
arara e tamuatá
não matem o mato inteiro
não morra o rio Guamá
toca Tocantins tuas águas para o mar...
Pará
(Nilson Chaves)
Marabá e Marapanim
Castanhal, Soure, Tenoné
Vigia, Marudá, Gurupi
Salinas, Jacundá, Juruti
Santarém e Maracanã
Timboteua e Algodoal
Joanes, Curuá, Curumú
Bragança, Salvaterra, Mojú
Atalaia, Marituba, Araguaia e Caraparu
Igarapé Mirim, Béja, Breves, Igarapé Açú
Abaetetuba, São Domingos do Capim
Chaves, Mosqueiro, Óbidos, Tomé-Açu
Itaituba e Cametá
Benevides e Curuçá
Oeiras do Pará, peixe-Boi
Uarí, Viseu, Portel, Bujarú
Capanema e Gurupá
Altamira e Marajó
Ananindeua, Tijó, Itinga
Outeiro, Ourém, Oriximiná
Ilha do Bacurí, Irituia, Guamá, Almerim
Santo Antonio do Tauá, Alenquer, Anhangá, Arari
Barcarena, Araticú e Camiranga
Traquateua, Anhangapi e Mocajuba
Ajuruteua, Acará, Aveiro e Juaba
Monte Alegre, Anajás, Jacareacanga
Pacoval e Curuai
Cachoeira do Arari
Curuçambá e Tucuruí
Muaná, Colares, Icoaraci
Alter do Chão, Belém e Boim
Contra Canto
Tim Pim Tim/Pinta Cue
AnatôCurôaqui/Tijó
Pariaçú, Orôa
Constelação Sentimental
(Nilson Chaves, Vital Lima)
E bem depois que a chuva caiu
Ainda o cheiro de terra encharcada
Tua solidão e tua boca molhada
O coração, de novo, armando outra emboscada
E o nosso interior comendo estrada
Beber do poço pela primeira vez
Cochicha-me tua boca a frase guardada
Vaca que emprenha a sua primeira rês
Medo de dizer o que não sabe a manada
E o nosso interior bebendo estrada
Um lampião nos levará pra casa
Sua luz lumiará teu coração também
E quando for a hora de eu ir embora
Não chora, espera,
Que sempre chega um outro bem
Olhando Belém
(Celson Viáfora)
O sol da manha rasga o céu da amazônia
eu olho belém da janela do hotel
as aves que passam fazendo uma zona
mostrando pra mim que a amazônia sou eu
Que tudo é muito lindo
É branco é negro é índio
No rio tietê mora a minha verdade
Sou caipira, sede urbana dos matos
Um caipora que nasceu na cidade
Um curupira de gravata e sapato
Sem nome sem dinheiro
sou mais um brasileiro
Olhando Belém enquanto uma canoa desce o rio
E um curumim assiste da canoa
Um boeing riscando o vazio
Eu posso acreditar que ainda dá pra gente viver numa boa
Os rios da minha aldeia são maiores que os de Fernado Pessoa (bis)
Molhando meus olhos de verde floresta
Sentindo na pele o que diz o poeta
Eu olho o futuro e pergunto pra insônia
Será que o brasil nunca viu amazônia
Eu vou dormir com isso
Será que é tão dificil
Olhando belém enquanto...(bis)
E o sol da manhã
Rasga o céu da amazônia...
Tempodestino
(Nilson Chaves, Vital Lima)
há entre o tempo e o destino
um caso antigo, um elo, um par
que pode acontecer, menino,
se o tempo não passar?
Feito essas águas que subindo
forçaram a gente a se mudar
que pode acontecer, meu lindo
se o tempo não passar?
O tempo é que me deu amigos
e esse amor que não me sai
que doura os campos de trigo
e os cabelos de meu pai
faz rebentar paixões
depois se nega às criações
e assim mantém a vida
(Que acontecerá aos corações
se o tempo não passar?)
Não mato o meu amor, no fundo,
porque tenho amizade nele
que já faz parte do meu mundo
do tempo entre eu e ele
Coração Sonhador
(Nilson Chaves)
Eu sonhei com a lua cheia
Prateando o céu e o mar
Vi o rio da tua beleza
Transbordando em meu olhar
Eu te vi uma sereia
Um sorriso sedutor
Doce ilusão nos olhos
Magia no meu coração sonhador
Quando te vi chegando, morena
Tão bonito que era
Eu vi o sol e a lua trazendo
As cores da primavera
Eu te vi um dia lindo
Teu olhar em mim raiando
Como um barco no horizonte
Do prazer me navegando
Eu, um bom boto e tu, cunhã
Na manhã do nosso amor
Doce ilusão nos olhos
Magia no meu coração sonhador
Namorada
(Luhli, Mário Avellar)
Quando estou em você
Longe estou se você não está
Esperando você voltar da rua
Deserta de mim
Namorada, quem sabe até
Vamos dar um passeio a pé na vida
Vamos dar um passeio a pé na vida
Vagalume
(Nilson Chaves)
Branco, preto
Treva e luz
Forte e fraco
Já me afasta mas me seduz
Sempre, nunca
Louco e são
Leão, leoa
Ê pomba-gira, agora iansã
Sempre te quero tudo
Sempre te tenho nada
Logo te percebo, logo te esqueço
Deslumbro o teu silêncio
Na dor da madrugada
Quero-te inverso, desejo-te avesso
Doce vagabundo, frágil coração
Facho do mundo, estrelas do chão
És pensamento do tempo
A força dos invisíveis
Vejo-te lumiarmente
Um rastro de arco-íris
Vagalume, água e terra
Sol e lua, planície e serra
Vagalume, fome e lira
Astro e não astro, noite e dia
Do Nada Pra lugar Nenhum
(Sá e Guarabyra)
Lembro de quanto tudo era doce
Lembro de quando tudo era vivo
Dentro de dois a força de ser só um
Hoje te vejo assim espantada
Como perdida em uma ilha e essa estrada
Que vai do nada pra lugar nenhum
Lembro da gente sempre bem perto
Por um caminho curto e direto
Atravessando os mares sem medo algum
Hoje te vejo em destino incerto
No meio desse imenso deserto
Que vai do nada pra lugar nenhum
O que será que existe dentro de nós dois
Além daquela vontade
Descobrir a verdade antes de tudo
O que haverá no muro d´entre nós dois
Além daquele espaço estranho
Escuro e mudo
Não há tristeza mais dolorida
Do que ter tido tudo na vida
E de repente perceber que é comum
Ser mais uma pessoa enganada
Ver o rumo confuso da estrada
Que vai do nada pra lugar nenhum
O que será que existe dentro de nós dois ...
Olho de boto
(Cristovam Araujo, Nilson Chaves)
E tu ficaste serena
Nas entrelinhas dos sonhos
Nos escaninhos do riso
Olhando pra nós escondida
Com os teus olhos de rio
Vieste feito um gaiola
Engravidado de redes
Aportando nos trapiches
Do dia a dia e memória
Com os teus sonhos de rio
E ficaste defendida
Com todas as suas letras
Entre cartas e surpresas
Recírio, chuva e tristeza
Vês o pesa da tua falta
Nas velas e barcos parados
Encalhados na saudade
De Val-de-cans ao Guamá
Porto de sal das lembranças
Das velhas palhas trançadas
Na rede de um outro riso
Às margens de outra cidade
Ah, os teus sonhos de rio!
Olho de boto
No fundo dos olhos
De toda a paisagem
Não vou sair
(Celso Viáfora)
A geração da gente
não teve muita chance
de se afirmar de arrazar de ser feliz
sem nada pela frente pintou aquele lance
de se mudar de se mandar dêsse País
e aí você partiu pro Canadá
eu fiquei no "já vou já"
pois quando tava me arrumando
pra ir bati com os olhos no luar
e a lua foi bater no mar
e eu fui que fui ficando...
distante tantas milhas
são tristes os invernos
não vou sair tá mal aqui mas vai mudar
os velhos de Brasília
não podem ser eternos
pior que foi pior que tá não vai ficar
não vou sair melhor você voltar prá cá
não vou deixar esse lugar
pois quando tava me arrumando
pra ir bati com os olhos no luar
e a lua foi bater no mar
e eu fui que fui ficando...
Tô que tô saudade
(Eudes Fraga)
LêLêLêLêLêLêLê LêLêLêLêLêLêLê
LeLêLêLêLêLêLêiê LêLê
Meu coração quer correr o mundo
Quer roubar você, matar meu desejo
Do beijo de arrepiar, de paixão primeira
Não é brincadeira, quer roubar você
Meu coração quer correr o mundo
Quer roubar você, matar meu desejo
Do beijo de arrepiar, de paixão primeira
Não é brincadeira, quer roubar você
Meu coração aventureiro é um zabelê apaixonado
No meio do teu querer fica aperreado
De tanto cantar você meu coração já transbordou
Mandou fazer um amor, foi só pra te ver
Tô que tô...
Saudade... Saudade... Saudade...
Do cheiro do teu amor, saudade...
Saudade, tô que tô saudade
Do cheiro do teu amor, saudade...
Saudade, tô que tô saudade.
LêLêLêLêLêLêLê LêLêLêLêLêLêLê
LeLêLêLêLêLêLêiê LêLê
Meu coração aventureiro é um zabelê apaixonado
No meio do teu querer fica aperreado
De tanto cantar você meu coração já transbordou
Mandou fazer um amor, foi só pra te ver
Tô que tô...
Saudade... Saudade... Saudade...
Do cheiro do teu amor, saudade...
Saudade, tô que tô saudade
Do cheiro do teu amor, saudade...
Saudade, tô que tô saudade.
LêLêLêLêLêLêLê LêLêLêLêLêLêLê
LeLêLêLêLêLêLêiê LêLê
Longe Perto
(João Gomes, Nilson Chaves)
Toda vez que eu viajar,
é sinal que estou aqui
e, quando estiver por lá,
quer dizer: nunca parti.
A vontade de voltar
não impede a de seguir
e, por onde quer que eu vá,
estarei vivendo em ti.
Partindo pra qualquer cidade,
tou voltando pra te ver;
ficando sob essas mangueiras,
fui-me embora sem querer.
Mandei trocar minha saudade
por um fato natural,
viver correndo pelo mundo
pra chegar no teu quintal.
Eu sou mesmo como um rio
que se vai enquanto vem,
o reverso do navio,
que não fica, estando além.
No Caribe, estou aqui;
se atravesso, fico aquém;
mas, se estou longe de ti,
tua presença me retém.
Eu nunca fui embora,
mesmo quando parti,
fui voltando pra tua porta,
vivo chegando aqui.
Lua Cheia
Quando das águas de um açude
não se ouvir mais
O mergulhar da jaçanā
do paturi
quando o bichinho punaré
já bem cansado de brincar
vai se aninhando num cantinho
pra dormir
a sirigóia nas quebradas anuncia
que o sol acaba de guardar o seu calor
pra dar lugar a luz que as noites alumia
sua beleza enfeitada pela côr
é lua cheia e os casais de passarinhos
enquanto espiam vão tentando se aquecer
até os peixes vão chegando de mansinho
a beira d'água como se quisessem ver
é quando ouve-se das cordas de uma viola
uma cantiga de amor que enche o ar
então o céu agradecido e como prova
joga um punhado de estrelas no lugar
Cigana Lua
(Flávio Venturini, Nilson Chaves)
No olhar um sonho,
No sonho um céu,
No céu estrelas,
Te vejo azul
Na luz da noite,
Na paz do rio,
Cigana lua
Dedico a ti
Qual um poema
Feito num cristal
O meu amor
É sempre assim
No cais do dia
A tua imagem
No meu destino
Doce verdade
A correnteza
Te trouxe aqui
Feito sorriso
Pousando em mim
No meu amor
O mesmo rio
Tanta saudade deságua em mim...
Sabor açaí
(Nilson Chaves e João Gomes)
E pra que tu foi plantado
e para que tu foi plantada
pra invadir a nossa mesa
e abastar a nossa casa
teu destino foi traçado
pelas mãos da mãe do mato
mãos prendadas de uma deusa
mãos de toque abençoado
és a planta que alimenta
a paixão do nosso povo
macho fêmea das touceiras
onde oxossi faz seu posto
a mais magra das palmeiras
mas mulher do sangue grosso
e homem do sangue vasto
tu te entrega até o caroço
e a tua fruta vai rolando
para os nossos alguidares
e se entrega ao sacrifício
fruta santa fruta mártir
tens o dom de seres muito
onde muitos não tem nada
uns te chamam açaizeiro
outros te chamam juçara
põe tapioca põe farinha d'água
põe açúcar não põe nada
ou me bebe como um suco
que eu sou muito mais que um fruto
sou sabor marajoara
sou sabor marajoara
sou sabor ...
Flor do destino
(Nilson Chaves, Vital Lima)
Te amei assim como água de chuva
Que vai penetrando pra dentro do mundo
Te bebi assim como poço de rua
Que eu olhava dentro mas não via o fundo
Tu me deste um sonho
Eu te trouxe um gosto de tucumã
Tu me deste um beijo
E a gente se amou até de manhã
Veio o sol batendo
E nos despertou
Da gente virando terra, mato,
Galho e flor
Água de riacho é clara e limpinha
Mas às vezes turva com a chuva violenta
Teu amor é um papagaio que xina
Dentro do silêncio da tarde cinzenta
E o amor é um rio
Profundo rio
De muitos sinais
Onde os barcos passam
Conforme o vento deseja e faz
Ai que ainda me lembro
Disso que ficou
Da gente virando terra, mato,
Galho e flor
Amazônia
(Nilson Chaves)
Sim, eu tenho a cara do saci, o sabor do tucumã
Tenho as asas do curió, e namoro cunhatã
Tenho o cheiro do patchouli e o gosto do taperebá
Eu sou açaí e cobra grande
O curupira sim, saiu de mim, saiu de mim, saiu de mim
Sei cantar o tár do carimbó, do siriá e do lundú
O caboclo lá de Cametá e o índio do Xingu
Tenho a força do muiraquitã
Sou pipira das manhãs
Sou o boto, igarapé
Sou rio Negro e Tocantins
Samaúma da floresta, peixe-boi e jabuti
Mururé filho da selva
A boiúna está em mim
Sou curumim, sou Guajará ou Valdemar, o Marajó, cunhã
A pororoca sim, nasceu em mim, nasceu em mim, nasceu em mim
Sim
Eu tenho a cara do Pará, o calor do tarubá
Um uirapuru que sonha
Sou muito mais
Eu sou, Amazônia!
